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Elas ocupam mais espaço nos MBAs – ESTADÃO


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Por ESTADÃO – Projetos Especiais

Dados da The MBA Tour, uma das maiores feiras deste segmento no mundo, mostram que 43,3% dos candidatos que prestaram o exame GMAT (Graduate Management Admission Test) em 2015, em todo o mundo, eram do sexo feminino. Mesmo com números ainda inferiores à média mundial, elas estão avançando também nessa área. Nos cursos de MBA brasileiros, embora não exista um índice consolidado para o País, a presença feminina gira em torno de 30% e 35%, de acordo com os especialistas ouvidos. “É notável que o Brasil, com tão poucas profissionais nos postos de liderança comparado a outros países como Estados Unidos e França, venha conseguindo atrair tantas mulheres para os cursos de MBA”, pondera Leandro Fraga Guimarães, professor do Programa de Estudos do Futuro da Fundação Instituto de Administração (Profuturo/FIA-USP). Para Fraga, que acompanha desde 1992 a evolução da presença feminina no MBA Executivo Internacional oferecido pela FIA, há uma curva ascendente na presença delas não somente nas escolas como também nos espaços de comando, mas que avança em ritmos diferentes. “Na nossa primeira turma, há 25 anos, não havia uma única mulher. Hoje, as classes têm entre 25% e 30% de participação feminina”, diz. Mas para ele o Brasil ainda é pouco aberto a tê-las no poder, o que faz com que essa proporção não se mantenha no topo das carreiras. “No mundo ideal, teríamos que ter 50% de homens e 50% de mulheres ocupando esses postos”, conclui.

Com o objetivo de entender o porquê dessa diferença de proporção e de pensar maneiras de diminuí-la, a Profuturo/FIA decidiu apoiar a iniciativa de um grupo de alunas do MBA Executivo Internacional que resolveu se reunir para refletir e trocar experiências sobre os desafios reservados às mulheres no mundo corporativo. A ideia de criar o “MBA FIA Women Networking” surgiu entre oito alunas após uma das viagens feitas durante o curso. “Voltamos da Índia impressionadas com as dificuldades que as mulheres enfrentam por lá e decidimos tornar nossos encontros informais de troca de experiência mais organizados e capazes de fazer algo concreto”, conta Rosalba Pantoja, 46, diretora de garantia e controle de qualidade da Eurofarma e uma das criadoras e entusiastas do grupo.

A colombiana, que vive no Brasil há 11 anos, conta que se sente “afortunada” por não ter enfrentado barreiras de gênero no decorrer de sua carreira, que começou na Colômbia e em empresas com muitas profissionais. Mas, com o passar dos anos, já em posições de comando, foi tomando contato com histórias não tão tranquilas, algumas até trágicas e de violência contra as mulheres e que, segundo ela, a despertaram para a necessidade de usar sua experiência em prol de outras integrantes do universo corporativo.

Rosalba conta que o grupo acaba de definir sua missão — ser referência no apoio para que as mulheres ocupem cada vez mais posições executivas no Brasil — e que, atualmente, elas estão desenhando projetos para ampliar sua atuação.

Como parte deste mundo imperfeito, Rubens Prata, CEO da Stato – consultoria especializada em recrutamento de executivos e outplacement —, aponta que a maior parte dos cursos de MBA no Brasil é liderada por homens e que isso, de certa forma, faz com que seus programas também estejam mais voltados para destacar competências tipicamente masculinas. Como exemplo, ele cita a valorização de maior nível de agressividade na tomada de decisões, característica mais comum entre eles.

Do lado das empresas, Prata avalia que muitas erram ao dar mais peso para experiência do que para as competências e atitudes ao recrutar seus executivos. “Há mais homens com vivências anteriores de CEO, por exemplo. Se valorizarmos somente isso, teremos sempre mais do mesmo. Para igualar esse jogo — de homens e mulheres nos postos de comando — a competência precisa ser o grande diferencial. A escolha por uma executiva não pode ser considerada uma aposta ou um ato de ousadia”, avalia.

Para a coach de carreira Vivian Wolff, grande parte dos homens, ao procurar por um MBA, está em busca essencialmente de retorno financeiro. Já elas têm objetivos mais amplos porque, em muitos casos, estarão tentando vencer barreiras e abrir um espaço que parecia estar fechado. A especialista acredita que este ambiente predominantemente masculino pode despertar em algumas mulheres o “complexo de impostor”, no qual se sentem menos preparadas para assumir determinados papéis, e que o MBA pode ser um meio de fazê-las se sentirem mais seguras para avançar na carreira. “Vale destacar que muitas procuram um MBA não somente para chegar ao topo das carreiras, mas também para retornar ao mercado de trabalho após uma licença-maternidade, por exemplo, ou porque querem empreender e ter maior controle sobre seu tempo e sua carreira”, afirma.

Este é o caso da dentista Adriana Lara Oliveira de Souza Ramos, 43. Ela foi cursar um MBA em marketing que pudesse fornecer as ferramentas de gestão que lhe faltavam para administrar melhor o seu consultório. “Quase todos os dentistas que conheço são donos de seu próprio negócio, mas saem da universidade sem orientação alguma de marketing e gestão”, diz. Adriana se sentia desvalorizada, com dificuldade para precificar seus atendimentos, e não sabia dizer com certeza qual era o seu salário, embora trabalhasse bastante. “O MBA abriu minha cabeça. Mudei completamente a postura com relação ao meu trabalho. Agora me sinto mais segura para identificar meus clientes e tomar decisões administrativas. A sensação é que saí do limbo”, relata.

Além de melhorar a gestão de seu próprio negócio, Adriana atribui ao MBA a oportunidade de identificar mais áreas de atuação. “Enxerguei outras possibilidades de realização profissional, como a de atuar na área de marketing de conteúdo voltado para a saúde. E este tem sido um plano que quero trabalhar para meu futuro”, revela a profissional liberal.

Seja para ascender aos postos de comando, dar uma guinada na carreira ou abrir seu próprio negócio e empreender, as mulheres precisam ter a clareza de que o MBA não é garantia de nada. “Não é um fim em si mesmo. É apenas um passo, mas que pode ser decisivo na realização profissional”, diz Vivian Wolff.